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Quando Pedir Provas é Apenas Má‑Fé Intelectual

Kemet, África e o Colonialismo Mental


Quando Pedir Provas é Apenas Má‑Fé Intelectual: Kemet, África e o Colonialismo Mental


Por: Isidro Fortunato 


Normalmente, eu não cito fontes históricas africanas a determinados religiosos. Não por falta delas — porque elas existem, são abundantes e cada vez mais estudadas — mas porque, em muitos casos, não se trata de uma busca honesta pela verdade, e sim de má‑fé intelectual profundamente enraizada.

Falamos de pessoas que acreditam que Nzambi é apenas uma tradução genérica de “Deus”, que tratam a Bíblia como um livro científico, mas que nunca se sentem obrigadas a explicar — com método, prova ou rigor — como pedras se transformam em pão, como peixes se multiplicam para alimentar multidões, como uma mulher pode ser gerada a partir de uma costela, ou como água se converte em vinho por decreto divino.

Essas mesmas pessoas, que nunca exigiram fontes para aquilo que aprenderam nas escolas coloniais, nem para os dogmas das religiões de matriz supremacista, sentem‑se subitamente académicas quando o africano é colocado no centro da história da civilização.

Kemet Não Precisa de Permissão

Quando afirmamos que o antigo Kemet (Egipto) foi uma civilização preta africana, que foi o berço das ciências, da organização social, da espiritualidade estruturada e do pensamento simbólico, surge o escândalo. Não porque faltem evidências, mas porque essa verdade confronta um sistema inteiro construído para retirar África do centro da narrativa humana.

Kemet não era uma exceção africana: era África em plena expressão.

A matemática, a astronomia, a medicina, a engenharia, a escrita simbólica, os princípios éticos e espirituais que mais tarde seriam apropriados, adaptados e embranquecidos por outras civilizações, nasceram em solo africano, desenvolvidos por povos africanos, organizados por uma lógica africana do mundo.

O Problema Não é a Falta de Provas — É o Ódio Interiorizado

Essas pessoas não pedem provas quando aprendem que:

  • A Grécia é o berço da filosofia, apesar de ter estudado no Egipto;
  • Roma é o modelo de civilização, apesar de ter herdado estruturas africanas e orientais;
  • A religião colonial é universal, apesar de ter sido imposta pela espada.

Mas pedem provas quando o africano reivindica a sua própria história.

Isso não é ceticismo. É auto‑ódio colonial.

É o resultado de séculos de lavagem mental religiosa e académica, onde o africano foi ensinado a se ver como objeto da história, nunca como sujeito. Onde colocar África como matriz civilizacional é tratado como crime intelectual, heresia ou militância perigosa.

A Perca de Tempo

Não escrevo para convencer quem já decidiu odiar a si mesmo.

Não escrevo para quem exige fontes apenas quando a narrativa ameaça o conforto do eurocentrismo.

Escrevo para quem está pronto para desaprender, para quem entende que conhecimento não começa na Europa, nem termina na Bíblia colonial.

E quem não consegue aceitar isso, simplesmente ainda está acorrentado — não por falta de provas, mas por medo da liberdade intelectual.



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