Maria das Dores”: Memória, Violência Escolar e o Legado do Ensino Colonial em Angola
Imagem ilustrativa - Conteúdo Original do Tema: Por Isidro Fortunato
Durante décadas, nas escolas das antigas colónias portuguesas em África — em particular em Angola — circulou um nome que causava temor imediato entre crianças e jovens estudantes: “Maria das Dores”. Mais do que um simples nome próprio, “Maria das Dores” tornou-se um símbolo da dor física e psicológica associada ao modelo de ensino colonial, marcado pela punição corporal, pela humilhação e pela violência sistemática como método pedagógico.
Quarenta anos atrás, muitos angolanos conheciam não apenas o nome, mas também o objeto que o acompanhava: a palmatória, instrumento de castigo usado para “corrigir” erros escolares, impor obediência e forçar o aprendizado através do medo.
A origem do nome: entre história e memória oral
Segundo relatos transmitidos oralmente em várias regiões de Angola, “Maria das Dores” teria sido o nome de uma freira portuguesa conhecida nas colónias pelos seus métodos extremamente violentos de disciplina escolar, sobretudo contra crianças africanas. A sua atuação estaria ligada a instituições religiosas envolvidas no sistema educativo colonial, onde o ensino servia não apenas para alfabetizar, mas sobretudo para disciplinar corpos e mentes dentro da lógica do império.
Após a sua morte, por volta de 1956, as palmatórias corretivas utilizadas em escolas coloniais teriam passado a ser chamadas de “Maria das Dores”, numa espécie de batismo simbólico que perpetuava a sua reputação e o medo associado à sua figura.
É importante sublinhar que, em muitos casos, a documentação oficial colonial silencia nomes, exagera virtudes e apaga violências. Assim, “Maria das Dores” sobrevive menos nos arquivos e mais na memória coletiva, no testemunho de quem viveu, sofreu e ouviu as histórias dentro das salas de aula.
A palmatória como instrumento pedagógico
A palmatória não era um simples objeto escolar. Era um instrumento de tortura legitimado pelo Estado colonial, aplicado com naturalidade por professores, missionários e freiras. Errar uma conta, pronunciar mal o português, falar uma língua africana na escola ou demonstrar cansaço eram motivos suficientes para receber pancadas nas mãos, nos dedos ou, em casos mais extremos, em outras partes do corpo.
O castigo não visava apenas corrigir erros académicos, mas quebrar resistências culturais, impor o idioma português e criar sujeitos obedientes, submissos e temerosos da autoridade.
Em Angola, o nome “Maria das Dores” passou a representar tudo isso:
- dor física
- medo
- humilhação pública
- aprendizagem forçada
- violência normalizada
Ensino colonial: educar ou dominar?
O sistema educativo colonial português não tinha como prioridade o desenvolvimento intelectual pleno das crianças africanas. O objetivo central era formar mão de obra dócil, auxiliares administrativos básicos e indivíduos moldados à hierarquia colonial.
A violência era vista como método legítimo de ensino. O sofrimento infantil era banalizado. E figuras como “Maria das Dores” — reais ou simbolicamente amplificadas — tornaram-se arquétipos de um modelo educativo baseado na repressão.
O silêncio pós-colonial e a necessidade de memória
Com a independência de Angola, muitas dessas práticas foram oficialmente abolidas. No entanto, o trauma permaneceu, transmitido de geração em geração. Durante muito tempo, falar sobre isso foi considerado exagero, ressentimento ou “coisa do passado”.
Mas a memória não desaparece. Ela ressurge nos nomes, nas expressões populares, nos relatos de pais e avós que ainda hoje dizem:
“Naquele tempo, a escola era Maria das Dores.”
Resgatar esse debate não é revanchismo. É justiça histórica. É compreender como a violência foi institucionalizada e como ela moldou relações de poder, medo e autoridade que ainda ecoam nos sistemas educativos africanos contemporâneos.
Conclusão: dar nome à dor é um ato de libertação
“Maria das Dores”, seja como pessoa histórica específica ou como figura simbólica, representa um capítulo sombrio do ensino colonial em Angola. Um tempo em que aprender significava sofrer, e errar significava apanhar.
Escrever sobre isso é um ato de memória e resistência.
É afirmar que a educação deve libertar, não ferir.
E que nenhuma palmatória — com qualquer nome que tenha — pode jamais ser chamada de pedagogia.



