Pular para o conteúdo

Entre a Santidade e a Demonização: a Contradição Religiosa na Sepultura de Dom Serafim e o Olhar Sobre as Culturas Africanas


Entre a Santidade e a Demonização: a Contradição Religiosa na Sepultura de Dom Serafim e o Olhar Sobre as Culturas Africanas


Foto Real

Recentemente foi noticiado que Dom Serafim Shingu ya Hombo, Bispo Emérito de Mbanza Kongo, será sepultado no interior da Sé Catedral da cidade, como forma de reconhecimento pela sua relevância pastoral e legado espiritual. A informação, avançada pelo Radar 2.7, destaca que, embora tradicionalmente apenas o primeiro bispo seja sepultado dentro da igreja, a hierarquia católica pode autorizar exceções com base em critérios como importância histórica, serviços prestados e impacto espiritual.

À primeira vista, o facto é visto com naturalidade, respeito e até admiração pelos fiéis. Para muitos, trata-se de um gesto de honra, dignidade e santidade. Mas é exatamente aqui que nasce uma reflexão profunda e desconfortável: por que razão o mesmo acto, se praticado no seio das culturas africanas tradicionais, seria automaticamente demonizado, criminalizado e associado à feitiçaria ou bruxaria?

A dualidade de critérios: santidade para uns, feitiçaria para outros

Imaginemos por um momento: um pai africano que decide sepultar o seu filho no quintal da sua casa; uma família que enterra o seu patriarca dentro do espaço familiar; uma comunidade tradicional que sepulta o seu líder espiritual no recinto sagrado da aldeia; ou uma religião de matriz africana que decide enterrar o seu guia dentro do templo. Qual seria a reação social? Muito provavelmente ouviríamos expressões como: “Isso é feitiçaria”, “isso é bruxaria”, “isso é coisa do demónio”, “isso é prática satânica”. Em alguns casos, não seria apenas demonização simbólica — haveria criminalização, perseguição social, exclusão e até intervenção policial.

Mas quando é a Igreja Católica que sepulta um bispo dentro da catedral, o acto passa a ser sagrado, digno, honroso, aceitável e até espiritualmente elevado. Aqui está a contradição central. O acto em si é o mesmo: enterrar alguém num espaço considerado sagrado ou íntimo. O que muda é quem pratica e a matriz cultural a que pertence.

A herança colonial na demonização da cultura africana

Durante séculos, a Igreja — aliada ao projecto colonial — trabalhou activamente para descredibilizar os sistemas espirituais africanos, classificar os rituais tradicionais como pagãos, rotular práticas ancestrais como demoníacas e impor a ideia de que tudo o que não viesse da Europa era inferior, primitivo ou satânico. Assim, criou-se uma engenharia psicológica profunda: o africano passou a desconfiar da sua própria cultura e a venerar a cultura do colonizador.

Hoje, muitos africanos aceitam sem questionar práticas da Igreja, mas rejeitam com veemência práticas idênticas na sua própria tradição. Isto não é coincidência. É condicionamento mental, é colonização do pensamento, é domesticação espiritual.

O problema não é a Igreja, é o critério desigual

Importa deixar claro: o problema não é Dom Serafim ser sepultado na catedral. O problema é o critério desigual com que se julga actos semelhantes. Se enterrar um bispo dentro da igreja é honra, por que enterrar um ancião dentro do espaço familiar é feitiçaria? Se o espaço da catedral é sagrado, por que o espaço ancestral africano é maligno? Se o ritual católico é santidade, por que o ritual africano é bruxaria? Essa disparidade revela uma coisa: não é a prática que é julgada, é a identidade de quem a pratica.

O posicionamento psicológico dos fiéis: fé ou dependência?

Muitos crentes não analisam, não comparam, não questionam. Aceitam. Repetem. Defendem. Atacam quem questiona. Isso demonstra dependência psicológica da instituição religiosa, medo de questionar a autoridade espiritual e rejeição automática de tudo o que remete à africanidade. É aqui que a religião deixa de ser fé e passa a ser ferramenta de controlo simbólico.

Conclusão: entre a cruz e a memória ancestral

A morte de Dom Serafim merece respeito, e a sua obra pastoral pode e deve ser reconhecida. Mas o debate que ela levanta é maior do que a própria Igreja. Ela expõe a hipocrisia histórica, o racismo cultural disfarçado de doutrina e a urgência de uma reconciliação do africano com a sua identidade espiritual e cultural.

Enquanto aceitarmos tudo da Igreja e rejeitarmos tudo da nossa ancestralidade, continuaremos espiritualmente dependentes, culturalmente amputados e mentalmente colonizados. A verdadeira libertação não é abandonar a fé, é libertar a fé do colonialismo.


Compartilhar esta publicação



Arquivar







Nosso Parceiro
Zango III, Rua da Dira Proximo ao Tribunal de Julgados de Menores
+244 948 062 055

Seja um apoiador do nosso canal e ajude a manter nosso trabalho. Obrigado!
Envie seu comprovante para que possamos expressar nossa gratidão
Faça login para deixar um comentário
Quando Pedir Provas é Apenas Má‑Fé Intelectual
Kemet, África e o Colonialismo Mental